De volta para Casa
Mais que um retorno, um propósito: a jornada de quem escolheu ensinar onde aprendeu “Muitos dos jovens que formamos são […]
26 de março de 2025
Mais que um retorno, um propósito: a jornada de quem escolheu ensinar onde aprendeu “Muitos dos jovens que formamos são […]
26 de março de 2025
Mais que um retorno, um propósito: a jornada de quem escolheu ensinar onde aprendeu
“Muitos dos jovens que formamos são um reflexo do que nós fomos, das dificuldades que enfrentamos. Compartilhar a minha história acaba sendo uma forma de ajudá-los a enxergar que também podem superar seus próprios desafios.” Essa é a perspectiva de Rogério Matos, egresso de uma das primeiras turmas da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves (CFR-PTN). Graduado como técnico em Agropecuária em 2009, dez anos depois, em 2019, recebeu um convite que mudaria o rumo da sua trajetória: Rogério retornaria para a instituição, mas desta vez como um educador.
“Percebi que poderia usar minha formação para lecionar algo que não se aprende apenas com a leitura ou com cálculos dentro da sala de aula, mas pelo contato direto e experiência prática. Foi um novo caminho, onde além de descobrir minha paixão pela educação, pude ajudar jovens e famílias a transformarem suas realidades por meio do conhecimento”, diz.
As Casas Familiares do Baixo Sul da Bahia – incluindo as unidades de Nilo Peçanha e Igrapiúna – são escolas de ensino médio integrado ao técnico que atuam como parceiras na execução do PDCIS, programa social da Fundação Norberto Odebrecht. Essas instituições qualificam adolescentes por meio de uma educação contextualizada ao campo, promovendo o aprimoramento de suas produtividades e formando-os como empresários rurais comprometidos com o desenvolvimento sustentável de suas comunidades e territórios.
A presença de professores que já foram alunos é algo muito marcante nessas instituições. Na CFR-PTN, por exemplo, metade do quadro de educadores já percorreu os corredores da escola como estudantes. Sildinei Barbosa é um deles. Após a sua formação, concretizou o desejo de retornar e lecionar para adolescentes, assim como um dia já foi. “Passa um filme na cabeça. Sempre quis trabalhar aqui. Às vezes, ouço dos alunos: ‘Professor, quero viver a mesma experiência que você e voltar para dar aula’. Então me sento com eles e digo que se eu consegui, eles também podem”, compartilha.
Mas quais fatores implicam nessa vontade tão grande de optar por seguir carreira no ambiente da Casa Familiar? Para Rogério, são alguns. O primeiro é referente a algo que, segundo ele, foi definitivo para a mudança em sua vida: o impacto da educação que recebeu. “Sou um jovem que veio de uma comunidade sem energia elétrica, que caminhava 12km para pegar o transporte que me levava à escola. Quando ingressei na CFR-PTN, minha perspectiva ainda era limitada à realidade da minha comunidade, onde muitos não tinham concluído nem o ensino fundamental”, diz o responsável por lecionar a disciplina de Gerenciamento Produtivo na CFR-PTN, assim como Sildinei.
Esse depoimento reflete um cenário que vai além do individual – é um retrato da realidade brasileira. Segundo a PNADC/IBGE (2022), quase metade da população rural do país (48,6%) não concluiu o ensino fundamental, enquanto 17,3% têm menos de um ano de estudo ou sequer recebeu instrução. “Se não fosse a Casa Familiar, eu provavelmente continuaria vivendo em fazendas como prestador de serviço e imaginando o dia em que sairia da extrema pobreza e teria um lar para chamar de meu. A educação oferecida me ensinou a sonhar para além das barreiras que, muitas vezes, a vida impõe”, declara Rogério.
O modelo de ensino das Casas Familiares, que se diferenciam das escolas convencionais, adota uma metologia conhecida como Pedagogia da Alternância, que proporciona aos alunos uma imersão completa no aprendizado – e que facilita, por si só, o acesso ao estudo, em um contexto em que muitos dos jovens vivem em áreas completamente isoladas na zona rural. Durante uma semana, eles frequentam o espaço escolar de forma presencial, absorvendo conteúdos e passando a noite nas instituições. Nas semanas seguintes, aplicam os conhecimentos adquiridos em suas propriedades, com o apoio contínuo dos pais e dos educadores, que realizam visitas para prestar assistência técnica.
“São várias as portas que se abrem após a conclusão do estudo aqui”, constata Sildinei. Ele afirma que ter se graduado na instituição, além de proporcionar uma vida hoje confortável, em que nada lhe falta materialmente, contribuiu para algo ainda mais profundo, que é a sua formação como indivíduo. “Adquiri valores e princípios para toda a minha vida. A Casa Familiar faz isso: direciona a gente. Antes, eu não tinha visão de futuro, não tinha nada”, comenta.
Mas as motivações também são outras. Ao permanecer no Baixo Sul da Bahia trabalhando como educador, Rogério afirma que consegue conciliar três coisas que, para ele, fazem muito sentido. “Atuo com o que gosto, que é a agricultura, e estou cercado pelo que realmente importa: minha família, comunidade, pessoas e territórios que fazem parte de toda a minha história”, explica. Além disso, consegue transmitir o mesmo apoio e conhecimento que um dia foram compartilhados com ele. “Dessa forma, sirvo também como exemplo para outros jovens”, adiciona.
Exemplo, referência ou qualquer outro sinônimo da palavra são escolhas exatas para descrever sob qual lente os alunos enxergam esses professores. Mas uma em especial se destaca: inspiração. “Muitos dos jovens se espelham em nós e acreditam no próprio futuro. Quando sua história é de origem semelhante à deles, ganham ainda mais confiança, porque percebem que também podem transformar suas vidas sem precisar deixar a nossa região. Minha jornada como educador me emociona”, diz Rogério. Para Sildinei, o sentimento não é diferente. “É uma sensação de conquista – e, junto com ela, vem uma grande responsabilidade: contribuir para o desenvolvimento e o futuro dessa nova geração”, conclui.
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